• Lara Cavalcanti Martins

A Agenda 2030 e a construção de um futuro desejável

Exemplo de processo democrático na cooperação internacional, a Agenda 2030 nos inspira a transformar nossas comunidades para chegarmos a um futuro mais igual e justo




1º de janeiro de 2030. Uma jovem marroquina acorda para mais um dia de trabalho. Vai até a sua geladeira e se serve de um copo d’água potável em sua casa própria. Após se preparar, pega os equipamentos para a sua bicicleta e se despede dos filhos: “Até a noite. Bom dia na escola, queridos!”. Seu andar é abastecido por energia motora e ainda reduz a emissão de gases poluentes e nocivos ao planeta.


Em 2020, eu me levanto para mais um dia de trabalho. Vou até a geladeira da casa da minha mãe, pego o meu café da manhã. Com pressa, me arrumo, pego as chaves de casa e me despeço: “Estou indo, não posso me atrasar. Dia longo hoje, não me espere para o jantar”.

Quais são os futuros possíveis? O que eu estou fazendo para que um novo futuro seja possível para a nossa sociedade?


A Agenda 2030 das Nações Unidas, composta pelos seus 17 objetivos, 169 metas e 247 indicadores é um guia de medidas ousadas e transformadoras, urgentemente necessárias para que alcancemos a totalidade do conceito de desenvolvimento sustentável até o ano de 2030. Isto significa equilibrar as três dimensões: social, ambiental e econômica, erradicando a pobreza em todas as suas formas e dimensões e protegendo o nosso mundo, garantindo as necessidades da geração atual, sem comprometer as gerações futuras. Tudo isso, sem deixar ninguém para trás.



Fonte: Agenda 2030 da ONU


Eu, uma jovem negra brasileira de 28 anos, estou conectada de inúmeras formas com a marroquina citada anteriormente. Falo de interdependência, de nos vermos como parte de um todo. Eu, como uma mulher que vê o futuro como uma chance de construir novas histórias. Ela, como uma mulher do futuro, que eu sonho para todas. Embora tenha recorrido a um exemplo Brasil-Marrocos, poderia comparar uma situação somente da realidade nacional, extremamente desafiadora quando o tema é desigualdade.


Construindo o futuro


“Não somos estatística, somos o futuro”, diz o slogan pessoal do jovem empreendedor social, Lucas Lima. Somos história. O meu fazer é extremamente desafiador e conectado com a ferramenta que eu acredito ser a mais útil para que essa história seja feliz. Estudante de escola pública por toda a minha vida, identifiquei cedo que gostava de surpreender as pessoas por meio da criatividade. E quem trabalha com a criatividade apresentando os fatos de forma inovadora? Os publicitários.


Na faculdade, o incentivo de uma professora me levou além: vivi uma experiência de intercâmbio acadêmico na Espanha por seis meses. Ao retornar, iniciei em uma instituição que desenvolve negócios de jovens da minha cidade, onde estou até hoje. Porém, não são quaisquer negócios. Afinal, se for para criar um novo negócio, que explore recursos humanos e recursos naturais, que ele pratique ao menos boas práticas socioambientais, e no máximo, tenha um modelo de impacto. Isso é o que faz sentido para mim.


O quanto jovens líderes podem influenciar para a construção de um futuro possível baseado na Agenda 2030? Greta, a menina sueca ativista ambiental, chama os jovens para a ação, mas redobra a responsabilidade dos mais velhos, dos líderes estabelecidos. Onde eles estavam que não viram a necessidade de olhar para a sustentabilidade do planeta e das pessoas?


Imagine 2030!


Segundo o SDG 2020 report, que apresenta a implementação dos índices dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 nos países membros da ONU, o Marrocos avançou mais em relação a três ODS, 1, 6 e 13, referentes à erradicação da pobreza, água potável e saneamento e ação contra a mudança global do clima. No Brasil, os ODS que tendem a estar mais avançados até 2030 são os 6, 7 e 13, sendo o ODS 6 sobre energia limpa e acessível.


No contexto atual, parece improvável que uma mulher africana tenha um trabalho decente, água potável em sua casa própria equipada e acesso ao transporte de qualidade. E ainda tenha dois filhos com acesso a educação de qualidade. No contexto brasileiro, a situação se agrava ainda mais. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), as mulheres ainda são sub-representadas e sub-remuneradas no mercado de trabalho. A saúde da mulher é carente de políticas públicas.


Em seu livro Sapiens, Yuval Harari afirma que “a realidade é uma construção”. Eu acrescentaria que a realidade é uma construção coletiva de alguns e que precisa urgentemente passar a ser construída por todos nós. A visualização futurística do início deste artigo é e deve ser o futuro que queremos, resultado da transformação do nosso mundo por meio de um plano de ação universal para pessoas, planeta e prosperidade, ainda que a desigualdade de gênero se mostre um impedimento ao desenvolvimento sustentável.


Exemplo democrático


A elaboração da Agenda 2030 é um grande exemplo de processo democrático na cooperação internacional, tornando-se um modelo de alcance e significado sem precedentes. Um compromisso estabelecido por todos os países que reitera a importância do valor da transculturalidade. Governos, organizações e sociedade civil juntos, olhando para suas ações do presente e suas consequências em um futuro não muito distante. Se não agirmos juntos agora, nada será possível.


A sociedade é a sua comunidade, a sua cidade, o seu bairro. É seu, é nosso. E como nós podemos começar a nos ver como agentes da transformação, agentes da mudança necessária para que possamos visitar o futuro e nos sentirmos orgulhosos do que construímos. Como podemos nos sentir contemplados pelo futuro desejável?


Todos nós podemos ser agentes do futuro melhor. Somos protagonistas e parte da solução. Todos podemos. A mudança começa com cada um de nós. E se podemos, por que ainda não estamos fazendo?


Uma fonte importantíssima para executivos que querem aplicar a Visão 2030 em suas empresas aqui no Brasil é o Relatório Luz da Sociedade Civil sobre a Agenda 2030. O documento aponta as metas em retrocesso, as ameaçadas, as estagnadas, as em que as ações estão insuficientes e as que estão com um nível satisfatório de atingimento no Brasil. Adicionalmente, o relatório ainda apresenta recomendações para cada um dos ODS.


Neste sentido, entendendo o potencial e a importância de um cidadão “comum” fazer a diferença, recomendo uma publicação da ONU chamada Guia da pessoa preguiçosa para salvar o mundo. O Guia do Preguiçoso traz dicas divididas em categorias: Superstar do Sofá, Heroína ou Herói da Família e Pessoa Legal do Bairro, de acordo com o grau de envolvimento e dificuldade da mudança de comportamento”. A versão em inglês ainda conta com um quarto nível: o Líder do Trabalho. Esse pode ser um primeiro passo, o que acha?